Das ofensas veladas offline e reveladas online: caso Duda Streb

Carlise Clerici Dieminger

carlise_px@hotmail.com

Na quinta-feira da semana passada (26 de abril), à jornalista Eduarda (Duda) Streb foi dirigido comentário polêmico por seu colega de trabalho, historiador e também jornalista Eduardo Bueno, conhecido como Peninha, enquanto gravavam ao vivo o programa Sala de Redação, da Radio Gaúcha. A discussão no momento referia-se à arbitragem quando Peninha, gremista, foi contrariado por Duda, colorada. “Conhecido por ser torcedor do Grêmio, Bueno rebateu críticas da colega ao clube do coração: ‘Quem é que convidou esse menina? Volta para a cozinha, da onde não devia ter saído’. (PORTAL IMPRENSA, 2018).

Logo na sequência, através das redes sociais, os internautas repreenderam a postura de Peninha, considerada machista. Recorda-se, nesse ponto, que o machismo, utilizando-se dos papéis sociais de gênero, pré-determinados pela sociedade aos sexos, representa uma violência física e/ou psíquica às mulheres justamente por serem mulheres. A reação ocorreu sobretudo no Twitter cujos trechos expõe-se a seguir:

Imagem 1

Fonte: (TWITTER, 2018-a)

Imagem 2

Fonte: (TWITTER, 2018-b)

Imagem 3

Fonte: (TWITTER, 2018-c)

Imagem 4

Fonte: (TWITTER, 2018-d)

A queixa partiu inclusive do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio Grande do Sul (SINDJORS), que classificou a frase de Peninha como machista, preconceituosa, agressiva e do tipo que acentua desigualdades sociais combatidas pelo feminismo:

O Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio Grande do Sul (SINDJORS) repudia, com veemência e indignação, o comentário ofensivo, machista e preconceituoso feito pelo jornalista e historiador Eduardo Bueno, conhecido como Peninha, dirigido a sua colega de trabalho, jornalista Eduarda Streb. […] O SINDJORS lamenta, profundamente, tamanha agressão, tenha ela sido feita seriamente ou em tom de brincadeira, o que também não se justifica. E condena que posições deste tipo, ao acentuarem as desigualdades sociais tão combatidas pelo movimento feminista, evidenciam falta de ética profissional e atentam contra o relacionamento civilizado em nossa sociedade, ainda sejam expostas em um programa de rádio de tamanha audiência. (SINDJORS, 2018)

Toda essa repercussão espontânea e imediata instigou o jornalista, já no dia seguinte (27 de abril), a se retratar, pedindo desculpas pela “piada ruim, antiquada” (UOL, 2018). Duda teve espaço para se pronunciar ao vivo, no programa posterior, quando, em meio às lágrimas, reconheceu o ambiente machista em que trabalha, bem como as manifestações de carinho recebidas:

Ainda muito abalada com a ofensa que sofreu, Duda também se pronunciou. A jornalista falou sobre a dificuldade de ser mulher em um ambiente de trabalho extremamente machista e, apesar de triste, aceitou o pedido de desculpas do colega de mesa. “É difícil ser mulher. Graças a Deus essa redação está cheia de mulher. Eu realmente tinha dúvida se tinha condições de falar. Eu não sou de me vitimizar, não combina comigo. Acho mesmo que foi uma brincadeira do Peninha. Na hora, nem levei a sério, mas essa brincadeira não tem nenhuma graça. Porque nós mulheres sabemos o tamanho da nossa luta, o tamanho do nosso esforço e o quanto o mundo esportivo é machista. Encaro essa brincadeira como infeliz”, falou Duda, chorando muito. “E por mim está tudo certo. Que esse episódio sirva de lição para a gente, para nós todos. Esse mundo precisa de amor, mais cuidado. Estou aqui por mérito, fui convidada pela RBS, aceitei esse espaço. É uma escolha minha ficar trabalhando como repórter longe de uma cozinha. Trabalhando em Olimpíada, Copa do Mundo, Mundial de Clubes, em muitos eventos que eu cobri por mérito. Desde ontem tenho recebido muitas manifestações e carinho. Foi uma brincadeira infeliz. Não vou almoçar contigo, mas está tudo certo”, encerrou. (UOL, 2018)

Conforme cobrança das redes sociais por um pronunciamento do Grupo RBS, este, também no dia 27, publicou comunicado, afirmando ter sido inadequado o comentário de Peninha e que a emissora prioriza o respeito em todas as suas manifestações (RBS, 2018).

Dessa forma, por todo o exposto, nota-se o poder reivindicativo das redes e de policiamento de discriminações. Especificamente em relação ao machismo, já dizia Manuel Castells que a conexão hoje possibilitada com as redes informacionais é um dos quatro principais elementos a confrontar o patriarcalismo:

O quarto elemento a induzir o desafio ao patriarcalismo é a rápida difusão de ideias em uma cultura globalizada, em um mundo interligado por onde pessoas e experiências passam e se misturam, tecendo rapidamente uma imensa colcha de retalhos formada por vozes femininas, estendendo-se por quase todo o planeta. (2010, p. 172)

Percebe-se também a facilidade com que os indivíduos se uniram em proteção à jornalista, apresentando-se o meio online como um espaço fértil para desconstruções culturais segregacionistas. De fato, “o ambiente efervescente de um círculo colaborativo pode fazer com que ideias e realizações dos participantes se desenvolvam mais depressa do que se eles estivessem buscando os mesmos objetivos sem o compartilhamento.” (SHIRKY, 2011, p. 96).

Nota-se, portanto, uma consciência coletivamente construída acerca da agressão velada, desse caso em comento. Foi essa consciência motriz para a retratação do ofensor, pronunciamento da empresa onde trabalha a jornalista e de seu sindicato, além de, talvez o mais importante, fazer-se ouvida.


CASTELLS, Manuel. O poder da identidade. São Paulo: Paz e Terra, 2010.

COMUNICADO. RBS, Porto Alegre. 27 abr. 2018. Disponível em: <http://www.gruporbs.com.br/noticias/2018/04/27/comunicado-11/&gt;: Acesso em: 3 maio 2018.

EDUARDO Bueno dirige comentário machista a jornalista da Rádio Gaúcha: “Volta para a cozinha”. Portal Imprensa, São Paulo. 27 abr. 2018. Disponível em: <http://portalimprensa.com.br/noticias/ultimas_noticias/80450/eduardo+bueno+dirige+comentario+machista+a+jornalista+da+radio+gaucha+volta+para+a+cozinha&gt;. Acesso em: 3 maio 2018.

PENINHA pede desculpas após piada machista e comentarista chora ao lembrar. Uol, São Paulo. 27 abr. 2018. Disponível em: <https://esporte.uol.com.br/ultimas-noticias/2018/04/27/peninha-pede-desculpas-apos-piada-machista-e-comentarista-chora-ao-lembrar.htm&gt;: Acesso em: 3 maio 2018.

SINDJORS condena agressão machista em programa de rádio. SINDJORS, Porto Alegre. 27 abr. 2018. Disponível em: <http://www.jornalistas-rs.org.br/detalhes-noticia/?txtIdNoticia=1070&gt;: Acesso em: 3 maio 2018.

SHIRKY, Clay. A cultura da participação. Rio de Janeiro: Zahar, 2011.

TWITTER. Disponível em: <https://twitter.com/FabianoBaldasso/status/989828776660959233&gt;. Acesso em: 3 maio 2018-a.

________. Disponível em: <https://twitter.com/anathaismatos/status/989606876919861248&gt;. Acesso em: 3 maio 2018-b.

________. Disponível em: <https://twitter.com/fabianolucas851/status/989692873078689793&gt;. Acesso em: 3 maio 2018-c.

________.Disponível em: <https://twitter.com/almilano/status/989881396004089857&gt;. Acesso em: 3 maio 2018-d.

Anúncios

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s