Reflexões sobre a publicidade infantil em tempos de influenciadores digitais

 

Jordana Freire
jordanafreirec@gmail.com

 

A publicidade transformou-se em um poderoso instrumento fomentador dos desejos de consumo, sendo praticamente impossível escapar de seus efeitos. O Código Brasileiro de Autorregulamentação Publicitária estabelece em seu artigo 8º que a publicidade deve ser entendida como “atividades destinadas a estimular o consumo de bens e serviços, bem como promover instituições, conceitos ou ideias”.

Quando essa publicidade é incorporada ao ciberespaço seus estímulos e demandas alcançam um número maior de usuários de forma quase que imediata, incluindo principalmente as crianças, que regularmente marcam sua presença nas redes. Mas o questionamento é: Quais as implicações das mensagens publicitárias quando inseridas no atual contexto virtual e estrategicamente direcionadas ao público infantil?

Segundo Pasqualotto (1997, p.131), o público infantil é um alvo altamente cobiçado pela publicidade, uma vez que se constitui em um atraente mercado de consumo, tornando-se também um meio de atingir os adultos.  Isso ocorre porque as crianças se encontram em uma condição de pessoas em desenvolvimento, razão pela qual são facilmente influenciáveis pelas mensagens publicitárias que circulam nos meios de comunicação.

Com a explosão das redes sociais, a publicidade se uniu a influenciadores digitais, blogueiros e youtubers, que atuam como formadores de opinião exercendo grande poder e influência de compra em seus seguidores. Um exemplo disso é o canal do youtuber Felipe Neto, que atualmente conta com 21 milhões de inscritos, sendo um espaço onde constantemente são veiculadas mensagens publicitárias dirigidas ao público infantil.

Em 2017, Felipe Neto, sofreu uma representação do Conselho de Autorregulamentação Publicitária – CONAR, mediante a queixa de oito consumidores, em razão de uma promoção divulgada em seu canal no Youtube, onde seriam sorteados três participantes para conhecer sua mansão de brinquedos, intitulada “NetoLand”.

 

IMAG 1

Segundo o CONAR, a promoção divulgada pelo youtuber não deixava claro que se tratava de um anúncio publicitário, bem como não esclarecia as regras para participar da promoção. Ainda, a linguagem utilizada por Felipe Neto continha apelos impróprios para menores de idade. Sendo assim, em fevereiro deste ano, o CONAR recomendou a sustação do anúncio.

Importante salientar que, a Lei 8.078/90, que dispõe sobre a proteção do consumidor, estabelece em seu artigo 36 que a “publicidade deve ser veiculada de tal forma, que o consumidor fácil e imediatamente a identifique como tal”. O que ocorre com Felipe Neto, entre inúmeros outros influenciadores é que, grande parte do seu público corresponde a crianças, e como já dito anteriormente, estas não são totalmente capazes de distinguir o que é publicidade e o que é uma dica amiga daquela (web) celebridade que produz os vídeos e demais conteúdos online. O mais espantoso é que, conforme a edição online do jornal Diário de Santa Maria, os livros escritos por Felipe Neto ocupam as primeiras posições dos mais vendidos na edição da Feira do Livro de Santa Maria-RS de 2018.

Em março do presente ano, o youtuber Felipe Neto gerou polêmica ao ministrar uma palestra em um painel denominado “Lugar de Criança é no Supermercado: O poder de Compras do Público Infanto-juvenil”, promovido pela Associação de Supermercadistas do Rio de Janeiro – ASSERJ. Neste evento Felipe Neto deu dicas de como as empresas devem atuar na ambiente virtual.

 

FELIPE NETO

Constatando a necessidade de regulamentação, em 2014 o Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente – CONANDA elaborou a resolução nº 163, que dispõe sobre a abusividade no direcionamento de publicidade e de comunicação mercadológica à criança e ao adolescente. Em seu artigo 2º são elencados aspectos abusivos de comunicação, tais como a utilização da linguagem infantil, efeitos especiais, excesso de cores, pessoas ou celebridades com apelo ao público infantil, bem como dos personagens ou apresentadores infantis.

Ou seja, mesmo existindo regulamentação quanto à publicidade infantil, ela não é respeitada por estes atores online, que são economicamente recompensados para elaborar mensagens a serem direcionadas as crianças. Silva (2014, p. 104) afirma que “em tempos de redes sociais, temos que utilizá-las para protestar contra os aspectos abusivos, antiéticos ou apelativos de certas propagandas, especialmente aquelas direcionadas ao público infantil”.

Por fim, deixo a reflexão a ser realizada no que diz respeito à exploração da vulnerabilidade das crianças e adolescentes, que são constantemente expostas a publicidades abusivas e agressivas, arquitetadas por influenciadores digitais, que se utilizam de estratégias para atingir pais e terceiros, bem como sobre a possibilidade de conflitos familiares que podem ser ocasionados a partir da frustração dos desejos de consumos não satisfeitos.

MAFALDA

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ASSERJ. Felipe Neto e Rafaela Silva se destacam como palestrantes em evento com empresários no Rio de Janeiro. Disponível em:

<http://asserj.com.br/artigos/2018/03/felipe-neto-e-rafaela-silva-se-destacam-como-palestrantes-em-evento-com-empresarios-no-rio-de-janeiro/ > Acesso em: 10 mai. 2018.

BRASIL. Código Brasileiro de Autorregulamentação Publicitária. São Paulo, 1980. Disponível em: <http://www.conar.org.br/codigo/codigo.php> Acesso em: 11 mai. 2018.

BRASIL. Código de Defesa do Consumidor. Brasília: 1990. Disponível em

<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/L8078.htm> Acesso em: 10 mai. 2018.

BRASIL. Código de Defesa do Consumidor. Brasília: 1990. Disponível em

<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/L8078.htm> Acesso em: 10 mai. 2018.

CONAR. Desafio Felipe Neto VS. Lucas Neto (NA NETOLAND). Disponível em: <http://www.conar.org.br/> Acesso em: 10 mai. 2018.

DIÁRIO DE SANTA MARIA. Do que tratam os 5 livros que estão fazendo sucesso na Feira. Disponível em: <http://diariosm.com.br/cultura/do-que-tratam-os-5-livros-que-est%C3%A3o-fazendo-sucesso-na-feira-1.2066193> Acesso em: 10 mai. 2018.

PASQUALOTTO, Adalberto. Os efeitos obrigacionais da publicidade no Código de Defesa do Consumidor. São Paulo: Revista dos Tribunais, 1997.

SILVA, Ana Beatriz Barbosa. Mentes Consumistas: do consumismo à compulsão por compras. São Paulo: Globo, 2014

Anúncios

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s